terça-feira, 8 de agosto de 2017

UMA BREVE ENTREVISTA EU COMIGO MESMO - LAUDO FERREIRA JR. - MÚLTIPLO 10

O desenhista e roteirista de quadrinhos Laudo Ferreira numa conversa muito franca consigo mesmo.

01-Se formos esquecer essa coisa de me auto entrevistar, eu entrevistando eu mesmo, como é isso para você?
À princípio quando o André Carim, editor do “Múltiplo” me chamou para essa empreitada, sugerindo esse tipo de entrevista, fui relutante, confesso até nem ter gostado muito da ideia, pois pode soar, ou talvez seja mesmo, algo egocêntrico. Mas, como sempre me seduzo por certos desafios, acabei gerando uma interessante logística na minha cabeça para poder fazer essa entrevista.
Enfim, espero que para você também esteja sendo algo no mínimo interessante.


02-Existiria alguma possibilidade de você ser uma pessoa diferente do que é e sempre foi, tanto na arte, quanto na vida?
Há uma infinidade de possibilidades em infinitas dimen-sões. Talvez existam vários Laudos coexistindo agora em outros campos, sendo coisas diferentes do que eu sou. É permitido isso. Quem sabe... um funcionário de banco... um milionário... um empresário bem-sucedido... um men-digo... um homossexual... um travesti... um outro tipo de pai de família... um assassino... muitas possibilidades...
Nessa dimensão, nessa vida, esse Laudo que muitos conhecem é o que optei em ser e ponto final. Assumi muitas coisas, que talvez na ocasião que tenha feito essa escolha, nem mensurasse o tamanho, mas enfim, há algo no meu DNA que é a bússola do que sou e mesmo que mudasse radicalmente meu jeito de ser, pensar, viver e fazer minha arte, esse “algo” ainda estaria lá, então, não tem jeito. Como cantou lindamente Drummond em “Poema de sete faces”: quando nasci, um anjo torto, desses que vivem na sombra disse – Vai Carlos, vai ser gauche na vida!


03-Vamos falar de arte agora? Da sua arte.... Qual é a busca dela? Existe, aliás, busca na sua arte?
Talvez. Há alguns anos atrás. Talvez lá no início. Hoje e já há algum tempo, não. Dispensei “rótulos”, estilos, linhas. Buscar que me identifiquem com esse ou aquele gênero. Liberdade absoluta. Faço o que quero e o que meu coração acha no mínimo interessante.

04- Fazer uma obra para refletir ou divertir?
Tudo misturado. Mas, antes de qualquer coisa é preciso que o leitor se identifique com a sua obra.

05- Como está hoje, 2017, o artista e a pessoa que ficou treze anos escrevendo e desenhando uma História em Quadrinhos de quase quinhentas páginas chama “Yeshuah”?
Primeiramente treze anos mais velho. Hoje um pouco mais, pois comecei a desenhar em dois mil e terminei em dois mil e treze. Maduro em certas coisas, penso isso. Sem um pingo de preocupação sobre esse tempo todo vivido. A experiência tem que se misturar ao seu organismo, a sua mente. Deixá-la lá atrás e viver no que ela gerou, mas hoje em dia. Sobre meu profundo amor a esse trabalho produ-zido, todos que conhecem meu trabalho, sabem disso. Ele é único e sempre será, porém, vamos adiante.

06-Há limites no universo de seus quadrinhos? Erotismo, espiritualidade...
Não existem limites. Tudo pode se misturar, se for o caso. E se misturam. Nunca tive esse pensamento, esse tipo pu-dico e ditador de censurar, algo como “isso não pode naquilo”. Claro, existem certas questões que à princípio não se encaixam, mas em um segundo até que sim. Essas duas linhas de HQ’s, a mim são interessantes, atiçam minha curiosidade e minha libido. Não sou falso ou iludido com elas, então me entrego inteiro e esses dois gêneros acabam ficando quase que semelhantes para mim.

07- E por que desses dois gêneros serem pertinentes em seus quadrinhos?
Já cheguei a teorizar sobre, pensando em alguns trabalhos feitos. Talvez pela dualidade, embora como disse anteriormente, essa dualidade em mim transite normalmente. Pelo lado terra do sexo e o lado “céu” do espiritual e ao mesmo tempo, o sentido inverso. Por serem dois elementos que até historicamente falando seduzem o ser humano. Pelos excessos tanto no profano, quanto no sagrado. Pelo mistério de ambos. Enfim, existe uma infinidade de coisas que se pode pontuar, por isso acaba sendo indecifrável, digamos assim e justamente por isso, também, que parei de me questionar, simplesmente aceito como algo inerente em meu trabalho, até o presente momento, claro. Amanhã, de repente, tudo pode mudar, e essa liberdade que é importante.

08- Diante de uma resposta como essa, posso afirmar que você é um autor sem estilo definido?
Dentro de uma teórica, sim. Fiel a mim, dentro da minha perspectiva. E dentro de um plano maior: isso importa?

09- Tianinha... Meia-Lua... David Escarlate... Jambalaya... Zé do Caixão... o assassino da minissérie “Depois da meia-noite”... Jesus... Qual destes personagens que você traba-lhou e trabalha ainda que mais te cativa ou cativou?
Cada um tem seu valor dentro da época que foi feito. Cada um teve um lado meu, como artista e pessoa, que mais foi mexido. Todos me cativam ainda.

10-Repetiria esse tipo de experiência como essa entrevis-ta?
Sim e Não. Não, porque já a fizemos agora e está bom, né? Sim, porque no final das contas, fazemos isso a toda hora, todo instante, não é?