quarta-feira, 3 de maio de 2017

Entrevista com MIKE DEODATO - MÚLTIPLO 7 - MAIO DE 2017

Como se tornou quadrinista? Quem o influenciou e lhe ensinou a desenhar?
Mike Deodato: Meu pai, Deodato Borges, criador do Flama, primeiro herói em quadrinhos do Nordeste, em 1963.

Quais os trabalhos que influenciaram seu modo de desenhar?
Mike Deodato: Spirit, Chandler, Heavy Metal Magazine, Batman - Ano 1, Cinco por Infinitus.

Nos fale um pouco de sua primeira revista indepen-dente e do seu personagem Ninja.
Mike Deodato: Foi criada em 1980, eu tinha só 17 anos. O nome era Revista HQ. O personagem, O Ninja, foi criação minha e de meu amigo José Augusto. Era um ninja que passara para o lado do bem, deixando de ser um assassino de aluguel para defender quem precisasse.

O que seu pai representou para você profissionalmente? Ele também era quadrinista?
Mike Deodato: Nós trabalhamos como uma dupla durante muitos anos. Foi aonde aprendi muito sobre narrativa. Ele escrevia os roteiros em forma de pequenos sketchesdas, páginas com os balões e tudo. Receber os roteiros assim era uma grande aula.
Como foi sua vida no mundo dos fanzines e dos quadrinhos? Poderia falar de cada fase?
Mike Deodato: O tempo dos fanzines era um período de descoberta, aprendizado. Não dava para viver deles, mas era muito gratificante de qualquer maneira. Hoje em dia eu tenho a mesma alegria, e ainda por cima, tenho o reconhecimento e ganho o suficiente para viver do que faço.
Você é da Paraíba, não é? O que foi fazer “A História da Paraíba” em quadrinhos?
Mike Deodato: Foi bem trabalhoso. O prazo era curto e havia muita pesquisa. O resultado foi bom. Foi bacana ter uma revista distribuída para escolas públicas e poder alcançar um público diferente.

Trabalhou em alguma editora nacional?
Mike Deodato: Algumas: Icea, Vecchi, Maciota, Abril, e outras que não lembro.
Em quais países publicou seus trabalhos?
Mike Deodato: A Marvel e DC estão no mundo todo, então...
A “Mulher Maravilha” foi o seu reconhecimento no mercado americano? Fale um pouco dessa fase.
Mike Deodato: A revista, segundo me disseram na época, teve suas vendas triplicadas depois de minha chegada. Eram os anos 90 então tudo era muito exagerado: violência, sensualidade, roupas. Minha fase refletiu tudo isso.

Hoje você tem contrato com a Marvel, não é mesmo? Qual (is) personagem (ns) você desenha hoje para a Marvel?
Mike Deodato: Old Man Logan.
Quais personagens da Marvel você desenhou ao longo desse tempo?
Mike Deodato: Estou por lá desde 1995, então posso dizer que desenhei quase todos.

Como foi produzir para a revista mensal da Elektra?
Mike Deodato: Trabalhei com dois escritores com estilos distintos: Milligan, que focava mais nos relacionamentos e Hama, cujo foco era na ação. Foi uma época divertida.
No Brasil, quais trabalhos marcaram a sua carreira?
Mike Deodato: 3000 Anos Depois, A Arte Cartum de Mike Deodato e Quadros.

O seu traço tem influência de quais quadrinistas internacionais/nacionais?
Mike Deodato: Muitos, mas os principais autores foram Eisner, Neal Adams, Frazetta, Steranko, Ziraldo, Mozart Couto.

O seu traço tem um certo domínio do claro-escuro, como se dá isso?
Mike Deodato: É uma preferência minha, influência de Will Eisner.
Pelo que já ouvi falar do seu trabalho, você domina tanto o Preto e Branco quanto o Colorido. Tem preferência por algum deles? Qual o estilo que marca a sua carreira de desenhista?
Mike Deodato: O preto e branco, definitivamente, tanto por preferência quanto por ser marcante em minha carreira.

Nos conte sobre os seus quadrinhos autorais.
Mike Deodato: O principal deles se chama Quadros, publicado pela Editora Mino. São crônicas em quadrinhos aonde falo de tudo um pouco, e experimento graficamente como em nenhuma obra minha anterior.
Como era acompanhar os trabalhos de seu pai?
Mike Deodato: Um privilégio, um prazer vê-lo criar personagens e mundos do nada. Ele era genial.

Quando começou efetivamente a desenhar? Quais os trabalhos iniciais?
Mike Deodato: Comecei aos treze, mas publiquei somente aos quinze em um jornal local. Meu primeiro trabalho em quadrinhos pago foi aos 22.
Realizou parcerias com seu pai? Quais e como nasceram esses projetos?
Mike Deodato: Muitos para listar aqui, mas os mais importantes foram 3000 Anos Depois, um álbum no qual meu estilo atual já começava a tomar forma e Verso-reverso, que foi nosso primeiro trabalho publicado por uma grande editora, a Editora Abril.

O que você pode nos dizer sobre a reedição no Brasil de 3000 Anos Depois?
Por que você incluiu duas páginas inéditas nesse tra-balho?
Mike Deodato: Enquanto eu participava da coletânea de imagens e histórias, e depois de dar várias entrevistas sobre a época, me veio a vontade de revisitá-la. Foi saudosismo mesmo. Ficou muito bacana o álbum, como se fosse um fanzine de luxo.
Tem algum projeto de republicar algum sucesso seu?
Mike Deodato: Tenho planos de publicar Ramthar. Fiz duas histórias dele em parceria com Mozart Couto que nunca foram publicadas.
uns e charges para jornais? Como e onde se deu essas publicações? Qual o alcance delas?
Mike Deodato: Isso foi nos anos 80. Saíam pelo Jornal Correio da Paraíba.

Quando decidiu virar um desenhista profissional?
Mike Deodato: Desde os meus treze anos eu já sabia o que queria ser. Somente aos 28 foi que consegui viver dos quadrinhos.

Pode se considerar autodidata no desenho? Fale um pouco sobre.
Mike Deodato: Tudo que sei de quadrinho eu aprendi copiando de gibis, então sim, pode-se dizer assim.
Como o mercado americano descobriu o seu trabalho e qual a história por trás do primeiro convite?
Mike Deodato: Foi através da agência Art & Comics, que surgiu para representar quadrinistas brasileiros no exterior. Eles me ligaram por volta de 1991 e me ofereceram uma história chamada Santa Claws, para a editora "Malibu”.

O pseudônimo que utiliza, Mike Deodato Jr. Foi uma exigência dos editores americanos?
Mike Deodato: Foi uma sugestão de meus agentes porque eles acreditavam que havia uma rejeição por parte de editores e leitores à nomes que não fossem americanos.
Como se dava a produção para uma revista americana?
Mike Deodato: Era o mesmo processo de hoje, sem as facilidades da internet. Eu recebia o roteiro, mandava layouts via fax para aprovação e depois de terminá-los, os enviava via correio.

Você aderiu às novas ferramentas que a tecnologia trouxe? Utiliza o desenho digital?
Mike Deodato: Hoje em dia eu desenho tudo em uma mesa digital, o que significa que o original de papel não existe.
Por que “Miracleman Triunphant” não foi publicada? Qual sua reação ao saber que não seria publicada?
Mike Deodato: A Editora Eclipse faliu. Não senti muito na época porque era tudo muito corrido, dinâmico. Eu provavelmente já estava em dois outros projetos diferentes, logo após finalizar o primeiro número.

A “Era Image” teve uma grande influência em você, não?
Mike Deodato: Foi bem marcante sim. Fiquei impressionado com a energia, cores e o dinamismo.
Nos fale sobre Glory.
Mike Deodato: Era para ser a resposta da Image ao sucesso da Mulher Maravilha, por isso me contrataram, acho. Foi bacana finalmente ver meus desenhos com cores de última geração e finalmente poder fazer algo pra Image.

Teve algum problema para receber algum trabalho?
Mike Deodato: Tive alguns calotes no meio do caminho, mas depois que cheguei as grandes editoras tudo ficou mais fácil.
Por muito tempo, você ficou conhecido por desenhar as mulheres mais sensuais dos quadrinhos. Esse rótulo chegou a incomodar? Isso limitou os projetos que lhe eram oferecidos?
Mike Deodato: Deve ter limitado por um período, mas eu achava natural. De qualquer maneira, eu sempre pude demonstrar minha versatilidade e conseguir outros projetos.

Chegou a usar referências fotográficas? Nos conte a respeito.
Mike Deodato: Ainda uso até hoje. São ótimas fontes de referência, especialmente para sombreado e expressões corporais e faciais.

Falando das grandes editoras, Marvel e DC, você começou na DC, mas se estabeleceu na Marvel, a que se deve isso?
Mike Deodato: As duas sempre me trataram bem e com respeito, mas me sinto bem na Marvel e não vejo porque mudar.
O que difere o trabalho na Marvel do trabalho em outras editoras?
Mike Deodato: Meu trabalho difere um do outro de acordo com a época ou com o projeto que estou trabalhando, a editora não tem influência nisso.

Qual personagem é o seu favorito? Qual você sente o desejo de desenvolver um projeto?
Mike Deodato: Wolverine. Queria fazer algo com Tarzan, Príncipe Valente, os clássicos.

Em outras editoras, qual personagem gostaria de trabalhar?
Mike Deodato: Man Bat, Batman, Swamp Thing, Jonah Hex.

Qual o trabalho que mais se orgulha de ter feito e por quê?
Mike Deodato: Thanos. É uma história incrível e minha arte está num estilo que soa clássica e moderna ao mesmo tempo.

Já mudou de estilo? Até que ponto você pode ousar? Algum trabalho que gostaria de esquecer?
Mike Deodato: Muitas vezes. Se o personagem é meu, não tenho limites, mas se é trabalho para editoras que detém os direitos do personagem, eu posso ir até aonde eles aceitarem. Mas a Marvel tem sido, a grande maioria das vezes, bem receptiva.
Como vê o mercado nacional de antes e o de hoje? O que melhorou para os Quadrinhos Nacionais?
Mike Deodato: Mais editoras, mais eventos, mais títulos, mais autores, mais vendas. Estamos num período muito bom tanto comercialmente quanto criativamente, na minha opinião.

Nos fale um pouco de “Original Sin”. Como foi o seu trabalho nessa série?
Mike Deodato: Foi o primeiro evento que eu peguei na Marvel. Um tipo diferente de evento, mais contido, uma história de assassinato, bem no estilo noir, bem parecido com meu estilo.
Já sabe qual será o seu próximo projeto?
Mike Deodato: Por enquanto só Old Man Logan.

Nos conte sobre sua parceria com Brian Michael Ben-dis.
Mike Deodato: Já trabalhamos muitas vezes juntos, somos amigos, o que torna mais fácil e fluida a parceria. Adoro trabalhar com ele.

Poderia nos citar alguns talentos que surgiram no mercado nacional de quadrinhos?
Mike Deodato: Recentes? Os três MSP 50 são um mostruário do que tem de melhor no quadrinho naci-onal. A Editora Mino também tem revelado incríveis talentos.

Como se deu o fato de originais seus feitos, para a revista “A Espada Selvagem de Conan”, que não foram devolvidos? Conseguiu reavê-los?
Mike Deodato: Alguns apenas. A editora ainda me deve a devolução do resto.

Como você vê o fato de publicar costumeiramente artes em redes sociais?
Mike Deodato: Acho uma maneira muito bacana de receber uma resposta imediata dos meus leitores. É uma troca muito boa.

Como vê o universo independente dos fanzines? O que acha que eles representam?
Mike Deodato: Para mim foram laboratórios aonde pude experimentar e crescer como autor.

O que significa, para você, liberdade de criação?
Mike Deodato: Duas palavras: Quadrinho autoral.

Publica algum quadrinho por hobby?
Mike Deodato: Hoje não mais, mas sinto falta dessa falta de compromisso.
Quem é o Mike Deodato, como se definiria?
Mike Deodato: Campinense cabra macho sim senhor.

Qual a mensagem você deixaria para os fãs do seu trabalho e para aqueles que querem seguir essa car-reira?
Mike Deodato: Não esperem ser descobertos. Comecem já a fazer seu próprio quadrinho.

Há vida para o quadrinho nacional frente às grandes editoras como a Marvel?
Mike Deodato: Claro! Temos muita história para contar.
O que seria preciso para que isso funcionasse aqui no Brasil?
Mike Deodato: Acredito que estamos no caminho certo. Não dá para imitar os americanos. Cada país tem suas próprias características de mercado.
O Maurício de Souza, em uma entrevista recente, con-siderou que os quadrinhos de super-heróis estão sendo reinventados por novos artistas, citando entre os grandes, brasileiros como Mike Deodato. Qual sua opinião sobre essa possibilidade de renovação no gênero super-heróis?
Mike Deodato: Acho que qualquer gênero pode ser reinventado, só depende de criadores que ousem e se desafiem. Essa busca pela descoberta é o que torna nossa arte interessante.

Qual a influência de seu pai na sua formação como quadrinhista?
Mike Deodato: Meu pai foi a principal razão de eu me tornar um quadrinista. Sua maestria como criador e seu carinho e incentivo como pai foram minhas fundações.
Os lançamentos "Quadros" e a republicação de “3000 Anos Depois”, apresentam aos novos leitores a faceta autoral de Deodato, aquela, presente nos fanzines do século XX. Sente saudades de produzir trabalhos autorais? Há novos trabalhos autorais em pauta?
Mike Deodato: Estou com uma nova história pela metade, mas tive que parar devido aos meus compromissos com a Marvel. Sinto saudade sim, não tem nada que se compare a trabalhar em um projeto seu.
Mini currículo que gostaria que aparecesse na entrevista.
Mike Deodato: Natural de Campina Grande (PB), Deodato tornou-se quadrinista influenciado por seu pai, o jornalista, radialista, roteirista e também autor de HQs Deodato Borges. A carreira internacional começou depois da participação do XIII Salão Internacional de Angoulême, na França, quando teve trabalhos publicados na Bélgica, França e Portugal.
Em 1994, tornou-se conhecido do grande público ao desenhar a revista da Mulher-Maravilha (DC Comics), sendo depois contratado pela Marvel – onde ainda é considerado um de seus artistas mais importantes – para ilustrar diversos heróis como Thor, Hulk, Homem-Aranha, Os Vingadores e Elektra.
Atualmente desenha a revista mensal Old Man Logan.


O Múltiplo agradece a disponibilidade e o carinho de Mike Deodato, ao aceitar nos presentear com essa entrevista especial, dizendo que o seu talento faz jovens e adultos do mundo inteiro sonharem com o mundo das HQs.
E não poderíamos deixar de agradecer também, em forma de homenagem, ao maior responsável por termos o seu talento no mundo dos Quadrinhos. Fica aqui o nosso respeito a você e principalmente ao seu maior mentor, SEU PAI!
MIKE DEODATO E DEODATO BORGES, TALENTOS BRASILEIROS DAS HQs!!!